27 de mar de 2010

Solidão


*Tudo está diferente e ao mesmo tempo igual. Os dias não passam, o sol se esconde,a dor permanece latejando como uma ferida. A minha solidão te pede um beijo,te pede olhapramimporfavor. Sempre te busquei, tu fazes parte dos pedaços que me completam desde que nasci e mesmo aparecendo na minha vida de uma maneira inusitada ,tomaste de assalto a minha sanidade e meu controle e contrariando tudo que eu mais desejava permaneces à distância ,provocando uma sede sem fim e um sentimento magoado de espera que não termina nunca. Eu te sinto como parte da minha mente,parte da minha carne,parte do meu chão e parte do ar que respiro. Não sei onde começas tu e onde termino eu ,não sei onde meu pensamento se entranha no teu, tudo se confunde nas profundezas caóticas desse buraco vazio que tomou meu coração.

E nada é como deveria ser. O amor deveria bastar. Ponto final. Mas não é assim que tudo acontece. Sempre tem uma pedra no caminho...e o amor? Não sei onde anda o amor,mas o amor não termina. O amor chora .

Queria te dizer ,eu preciso de ti...e não posso mais fazer isto. Foi-se o tempo em que eu te cobrava coisas e soluçava noite adentro esperando mudanças que não vieram e nem virão,porque és o que és e eu sou o que sou.Hoje eu ainda soluço querendo o teu olhar dentro do meu,o teu abraço apertado me dizendo que tudo vai dar certo,porém o amargor dentro de mim me diz que passou o tempo de tentar.*

Pati K

26 de mar de 2010

O coração disparado

(Adélia Prado)

“Aqui é dor, aqui é amor, aqui é amor e dor:
onde um homem projeta seu perfil e pergunta atônito:
em que direção se vai?”

Tela de Vladimir Volegov,pintor russo que tem um talento incrível para retratar mulheres e misturar tons e cores.

Tenho lido algumas coisas de Caio Fernando de Abreu.
Não conheço muitos textos dele,mas deste pouco já dá prá saber que dele jorrava sentimento.
E só isso prá mim basta.
Aqui vai uma amostra:

Além do Ponto - Caio Fernando Abreu

Chovia, chovia, chovia e eu ia indo por dentro da chuva ao encontro dele, sem guarda-chuva nem nada, eu sempre perdia todos pelos bares, só levava uma garrafa de conhaque barato apertada contra o peito, parece falso dito desse jeito, mas bem assim eu ia pelo meio da chhuva, uma garrafa de conhaque na mão e um maço de cigarros molhados no bolso. Teve uma hora que eu podia ter tomado um táxi, mas não era muito longe, e se eu tomasse um táxi não poderia comprar cigarros nem conhaque, e eu pensei com força então que seria melhor chegar molhado da chuva, porque aí beberíamos o conhaque, fazia frio, nem tanto frio, mais umidade entrando pelo pano das roupas, pela sola fina esburacada dos sapatos, e fumaríamos beberíamos sem medidas, haveria música, sempre aquelas vozes roucas, aquele sax gemido e o olho dele posto em cima de mim, ducha morna distendendo meus músculos. Mas chovia ainda, meus olhos ardiam de frio, o nariz começava a escorrer, eu limpava com as costas das mãos e o líquido do nariz endurecia logo sobre os pêlos, eu enfiava as mãos avermelhadas no fundo dos bolsos e ia indo, eu ia indo e pulando as poças d'água com as pernas geladas. Tão geladas as pernas e os braços e a cara que pensei em abrir a garrafa para beber um gole, mas não queria chegar na casa dele meio bêbado, hálito fedendo, não queria que ele pensasse que eu andava bebendo, e eu andava, todo dia um bom pretexto, e fui pensando também que ele ia pensar que eu andava sem dinheiro, chegando a pé naquela chuva toda, e eu andava, estômago dolorido de fome, e eu não queria que ele pensasse que eu andava insone, e eu andava, roxas olheiras, teria que ter cuidado com o lábio inferior ao sorrir, se sorrisse, e quase certamente sim, quando o encontrasse, para que não visse o dente quebrado e pensasse que eu andava relaxando, sem ir ao dentista, e eu andava, e tudo que eu andava fazendo e sendo eu não queria que ele visse nem soubesse, mas depois de pensar isso me deu um desgosto porque fui percebendo percebendo, por dentro da chuva, que talvez eu não quisesse que ele soubesse que eu era eu, e eu era. Começou a acontecer uma coisa confusa na minha cabeça, essa história de não querer que ele soubesse que eu era eu, encharcado naquela chuva toda que caía, caía, caía e tive vontade de voltar para algum lugar seco e quente, se houvesse, e não lembrava de nenhum, ou parar para sempre ali mesmo naquela esquina cinzenta que eu tentava atravessar sem conseguir, os carros me jogando água e lama ao passar, mas eu não podia, ou podia mas não devia, ou podia mas não queria ou não sabia mais como se parava ou voltava atrás, eu tinha que continuar indo ao encontro dele, ou podia mas não queria ou não sabia mais como se parava ou voltava atrás, eu tinha que continuar indo ao encontro dele, que me abriria a porta, o sax gemido ao fundo e quem sabe uma lareira, pinhões, vinho quente com cravo e canela, essas coisas do inverno, e mais ainda, eu precisava deter a vontade de voltar atrás ou ficar parado, pois tem um ponto, eu descobria, em que você perde o comando das próprias pernas, não é bem assim, descoberta tortuosa que o frio e a chuva não me deixavam mastigar direito, eu apenas começava a saber que tem um ponto, e eu dividido querendo ver o depois do ponto e também aquele agradável dele me esperando quente e pronto.

Um carro passou mais perto e me molhou inteiro, sairia um rio das minhas roupas se conseguisse torcê-las, então decidi na minha cabeça que depois de abrir a porta ele diria qualquer coisa tipo mas como você está molhado, sem nenhum espanto, porque ele me esperava, ele me chamava, eu só ia indo porque ele me chamava, eu me atrevia, eu ia além daquele ponto de estar parado, agora pelo caminho de árvores sem folhas e a rua interrompida que eu revia daquele jeito estranho de já ter estado lá sem nunca ter, hesitava mas ia indo, no meio da cidade como um invisível fio saindo da cabeça dele até a minha, quem me via assim molhado não via nosso segredo, via apenas um sujeito molhado sem capa nem guarda-chuva, só uma garrafa de conhaque barato apertada contra o peito. Era a mim que ele chamava, pelo meio da cidade, puxando o fio desde a minha cabeça até a dele, por dentro da chuva, era para mim que ele abriria sua porta, chegando muito perto agora, tão perto que uma quentura me subia para o rosto, como se tivesse bebido o conhaque todo, trocaria minha roupa molhada por outra mais seca e tomaria lentamente minhas mãos entre as suas, acariciando-as devagar para aquecê-las, espantando o roxo da pele fria, começava a escurecer, era cedo ainda, mas ia escurecendo cedo, mais cedo que de costume, e nem era inverno, ele arrumaria uma cama larga com muitos cobertores, e foi então que escorreguei e caí e tudo tão de repente, para proteger a garrafa apertei-a mais contra o peito e ela bateu numa pedra, e além da água da chuva e da lama dos carros a minha roupa agora também estava encharcada de conhaque, como um bêbado, fedendo, não beberíamos então, tentei sorrir, com cuidado, o lábio inferior quase imóvel, escondendo o caco do dente, e pensei na lama que ele limparia terno, porque era a mim que ele chamava, porque era a mim que ele escolhia, porque era para mim e só para mim que ele abriria a sua porta.

Chovia sempre e eu custei para conseguir me levantar daquela poça de lama, chegava num ponto, eu voltava ao ponto, em que era necessário um esforço muito grande, era preciso um esforço muito grande, era preciso um esforço tão terrível que precisei sorri mais sozinho e inventar mais um pouco, aquecendo meu segredo, e dei alguns passos, mas como se faz? me perguntei, como se faz isso de colocar um pé após o outro, equilibrando a cabeça sobre os ombros, mantendo ereta a coluna vertebral, desaprendia, não era quase nada, eu mantido apenas por aquele fio invisível ligado à minha cabeça, agora tão próximo que se quisesse eu poderia imaginar alguma coisa como um zumbido eletrônico saindo da cabeça dele até chegar na minha, mas como se faz? eu reaprendia e inventava sempre, sempre em direção a ele, para chegar inteiro, os pedaços de mim todos misturados que ele disporia sem pressa, como quem brinca com um quebra-cabeça para formar que castelo, que bosque, que verme ou deus, eu não sabia, mas ia indo pela chuva porque esse era meu único sentido, meu único destino: bater naquela porta escura onde eu batia agora. E bati, e bati outra vez, e tornei a bater, e continuei batendo sem me importar que as pessoas na rua parassem para olhar, eu quis chamá-lo, mas tinha esquecido seu nome, se é que alguma vez o soube, se é que ele o teve um dia, talvez eu tivesse febre, tudo ficara muito confuso, idéias misturadas, tremores, água de chuva e lama e conhaque batendo e continuava chovendo sem parar, mas eu não ia mais indo por dentro da chuva, pelo meio da cidade, eu só estava parado naquela porta fazia muito tempo, depois do ponto, tão escuro agora que eu não conseguiria nunca mais encontrar o caminho de volta, nem tentar outra coisa, outra ação, outro gesto além de continuar batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, na mesma porta que não abre nunca.

14 de mar de 2010


Este começo de ano foi completamente fora do prumo,coisas imprevistas,desgastes,contratempos,correria,estress e turbulências...
tudo devidamente resolvido e contornado.

Eu já estava com saudade da rotina de sempre.

Sem paz interior não vivo,não sei adiar prá depois o sobressalto
do inesperado que me enerva. Gosto de surpresas,mas não de uma vida
só de sobressaltos,emoções à flor da pele e dores de cabeça por isto.
Não fui feita prá viver numa montanha-russa emocional e
me contento em ser convencional. E não sinto nenhuma frustração por isto.
Basta eu saber que segui as verdades que o meu coração determina.
Não preciso de mais nada prá me sentir bem.

Pati K

Poema da Amante


(Adalgisa Nery)

"Eu te amo
antes e depois de todos os acontecimentos,
na profunda imensidade do vazio
e a cada lágrima dos meus pensamentos.
Eu te amo
em todos os ventos que cantam,
em todas as sombras que choram,
na extensão infinita dos tempos
até a região onde os silêncios moram.
Eu te amo
em todas as transformações da vida,
em todos os caminhos do medo,
na angústia da vontade perdida
e na dor que se veste em segredo.
Eu te amo
em tudo que estás presente,
no olhar dos astros que te alcançam
e em tudo que ainda estás ausente.
Eu te amo
desde a criação das águas,
desde a idéia do fogo
e antes do primeiro riso e da primeira mágoa.
Eu te amo perdidamente
desde a grande nebulosa
até depois que o universo cair sobre mim
suavemente."